Um pesquisador da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) defende a criação de grupos de trabalho para monitorar a trajetória de ex-alunos que ingressaram na instituição por meio de políticas de ação afirmativa. Segundo ele, essa medida é fundamental para avaliar o impacto real das cotas no mercado de trabalho.
“A Lei de Cotas não é uma política fim”, explica o especialista, que também é um dos organizadores do livro “Impacto das Cotas: Duas Décadas de Ação Afirmativa no Ensino Superior Brasileiro”. Para ele, se as cotas não gerarem resultados tangíveis fora do ambiente universitário, a política pública terá falhado. A análise das trajetórias dos ex-cotistas é, portanto, essencial para determinar o sucesso da iniciativa.
O pesquisador destaca a importância da ação da Uerj em reunir ex-alunos cotistas para discutir suas experiências, considerando esse o ponto crucial para a avaliação da política.
Após 20 anos da implementação pioneira das cotas pela Uerj, em 2003, o especialista defende a atualização da lei estadual, especialmente no que se refere ao ingresso na pós-graduação. Atualmente, a Uerj combina a autodeclaração racial (preto ou pardo) com um critério socioeconômico, limitando o acesso a candidatos com renda familiar bruta per capita de até R$ 2.277. Esse valor é considerado baixo, principalmente para as cotas sociais e raciais na pós-graduação.
Segundo o especialista, estudantes considerados carentes raramente alcançam o mestrado ou doutorado. A concessão de bolsas, embora auxilie, pode fazer com que o estudante deixe de se enquadrar no critério de carência, tornando as cotas na pós-graduação menos eficazes.
Ex-alunos cotistas da graduação, reunidos em um evento no mês da Consciência Negra, expressaram a necessidade de revisão do corte socioeconômico para ampliar o acesso de pessoas pretas e pardas ao ensino superior.
Dados de um levantamento indicam que pessoas pretas representam apenas 4,1% dos mestres e 3,4% dos doutores, enquanto pardos somam 16,7% e 14,9%, respectivamente. A participação de indígenas é ainda menor. Entre 1996 e 2021, a maioria dos títulos de mestrado e doutorado foi obtida por pessoas brancas.
A lei que estabeleceu as ações afirmativas na Uerj e o corte socioeconômico só será em 2028. Até lá, o pesquisador sugere que as universidades utilizem os editais de ingresso para flexibilizar as restrições, utilizando a autonomia universitária. Ele aponta que a judicialização de processos de ingresso em cursos de mestrado e doutorado é alta, tornando uma lei mais flexível em relação aos limites socioeconômicos o cenário ideal.
Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br