Lançada no dia 27 de fevereiro de 2026, a nova colaboração entre Mac Júlia, FBC e Pepito, denominada “Para Não”, embalou a cena underground de Belo Horizonte ao dar continuidade a uma sonoridade musical característica de Beagá: a música de quebrada.
Com versos que contam a história de quem veio da periferia, enfrenta a violência, despreza a burguesia e a política tradicional, a música de Mac Júlia faz da margem um lugar de potência, celebração e ascensão financeira.
“Para Não” é o single que dá nome à nova era de Mac Júlia. A faixa integra o álbum “Segue o Baile”, com lançamento previsto para o primeiro semestre de 2026. Há ali uma articulação nostálgica que revisita o passado para construir uma sonoridade moderna e política, não como um mero saudosismo, mas sim um manifesto do seu tempo.
Essa construção, no entanto, não nasceu do nada: a artista mineira já vinha pavimentando esse caminho dentro do Miami Bass, e a parceria com FBC na música ‘Se tá solteira’, integrante do álbum “Baile”, que estourou nacionalmente e acumula centenas de milhares de visualizações, é prova disso, e de lá para cá vieram “Beijo na Boca”, “Ajoelhou” e agora “Para Não”, produções que, juntas, desenham os contornos do Miami Bass feito em Minas.
Diante disso, o som de Mac Júlia se afirma como continuidade do funk que nasceu nos bailes de quadra de Belo Horizonte. Do Baile da Vilarinho e da Máscara Negra à trajetória de Mc Pelé, expoente do Miami Bass em Beagá, sua musicalidade povoa geograficamente as narrativas da capital mineira e, ao fazer isso, coloca o ouvinte como protagonista da obra.
Essa sonoridade ganha ainda mais força quando implementada por mãos essenciais dentro do processo criativo: FBC e Pepito. Com trajetória consolidada, FBC se firmou como um dos principais nomes do Miami Bass no Brasil, materializando no disco “Baile” o que ele mesmo chamou de “Ópera de Miami”: uma construção musical ancorada em narrativa dramatizada, onde cada faixa foi pensada seguindo o desenvolvimento de um cenário e um protagonista.
E foi assim com todos os álbuns do Padrim, que dispõe de uma musicalidade intrínseca ao território. Seu último lançado, “Assaltos e Batidas”, resgata o Rap naquilo que ele tem de mais basilar: a vivência cotidiana da periferia. Afinal, se eu fosse aquele cara que se humilha no sinal, por menos de um real, minhas chances eram muito poucas. Um artista que consegue juntar Eduardo Taddeo e Mano Brown numa mesma música pode tudo, já fez rap, funk e house, e se prepara para lançar um novo trabalho, desta vez no rock.
Noutro ponto, atrás de toda engenharia e arranjo sonoro, está o produtor Pepito. O artista que assina produções de Djonga, FBC, Mc Morena e Mac Júlia, se destaca por incrementar o funk belo-horizontino sem deixar de fora os princípios de quem veio antes. Sua engenharia sonora repactua as possibilidades do rap e do funk num mesmo baile, e é por isso que a combinação dos três dá tão certo.
De fato, é preciso frisar que as criações dessa nova geração de artistas dentro do Xeque Mate Studios representam um movimento histórico para Belo Horizonte. Para além disso, posicionam-se como produção intelectual e artística de altíssimo nível fora do eixo Rio-São Paulo, mostrando a força e o talento que Minas Gerais carrega.
Além deles, uma pluralidade de artistas vem construindo essa cena nas mais variadas vertentes, fazendo de Belo Horizonte um polo cultural sem precedentes no Brasil. VHOOR, Mc Morena, Nick Doll, Luar, Fernanda Valadares, Sara Sampp, C3L1N, Mc Preta Lua, ADESTINO, Linguini, dentre outras, são prova viva disso.
Dessa forma, para além da sonoridade, “Para Não” carrega uma dimensão política. A música denuncia os crimes da Vale num contexto em que estado e setor privado caminham juntos na exploração da natureza, destruindo povos e tradições — como fazem na Serra do Curral. Por isso, enxergo a música como potência contestatória, que dá voz e urgência aos enunciamentos das corpas periferizadas e dos agentes que emergem na capital mineira.
Assim, do Jardim Alterosa e Cabana do Pai à Vila Mariquinha, o trem-bala mineiro não para não. E não para porque a obra de Mc Pelé segue viva, difundida por seus discípulos em cada canto desta cidade. Mac Júlia e Pepito, melhor gestão, Não Para Não!
Marco Túlio Dias é advogado, artista e intelectual do Movimento Negro em Minas Gerais. Seus trabalhos podem ser acompanhados por meio do Instagram @negromar e @coletivonegrovda.